A televisão digital francesa está passando por um período de reestruturação acelerada. O vídeo sob demanda, seja através das plataformas dos canais, SVOD ou redes sociais, representa agora 39% do tempo de vídeo diário, contra 36% em 2024, segundo a Médiamétrie em seu relatório “L’Année TV / Vidéo 2025”. Essa mudança altera tanto os hábitos dos telespectadores quanto as estratégias dos broadcasters e as escolhas técnicas que estruturam o mercado.
Coleta de dados em televisores conectados: um ângulo morto do entretenimento
Os televisores conectados tornaram-se o principal ponto de acesso ao vídeo sob demanda. Essa centralidade levanta uma questão que os guias de compra raramente abordam: a coleta de dados pessoais realizada pelos fabricantes.
Trabalhos recentes destacaram a coleta permanente realizada por alguns sistemas operacionais integrados nos televisores, especialmente na LG. O acompanhamento dos conteúdos assistidos, dos aplicativos abertos e dos hábitos horários alimenta perfis publicitários explorados pelos próprios fabricantes ou revendidos a terceiros.
Os parâmetros de privacidade existem, mas muitas vezes estão enterrados em submenus. A desativação completa do rastreamento continua difícil sem abrir mão de certas funcionalidades do televisor. As novidades da televisão digital e do entretenimento podem ser acompanhadas em https://www.dvtelevision.fr/, que cobre esses assuntos de forma regular.
Essa situação cria um paradoxo: o televisor ganha em inteligência, mas o telespectador perde o controle sobre seus próprios dados. As opiniões em campo divergem nesse ponto, com alguns usuários preferindo a comodidade das recomendações personalizadas, enquanto outros buscam ativamente limitar o rastreamento.

Canais FAST na França: o retorno da linearidade gratuita por outra porta
O modelo dos canais FAST (Free Ad-Supported Streaming Television) está ganhando força na França. Esses canais transmitidos exclusivamente online recriam uma programação linear a partir de catálogos existentes, financiada por publicidade, sem assinatura paga.
O princípio lembra a televisão tradicional: um fluxo contínuo de programas, sem escolha ativa do espectador. A diferença está no meio de transmissão (internet, e não ondas hertzianas) e na natureza dos conteúdos (frequentemente reprises temáticas).
Os canais FAST levantam questões regulatórias. A regulação atual foi concebida para a TNT e a SVOD, não para esse modelo híbrido, e as obrigações que se aplicam a esses canais ainda precisam ser esclarecidas.
Os dados disponíveis ainda não permitem medir com precisão a audiência desses canais na França. No entanto, sua multiplicação nas interfaces dos televisores conectados (Samsung TV Plus, LG Channels, Pluto TV) indica uma adoção crescente.
Renovação das frequências TNT 2027: o que a Arcom está preparando
A renovação das frequências TNT prevista para 2027 representa um ponto de virada para o panorama audiovisual francês. A Arcom está preparando um edital para várias canais gratuitos cujas autorizações estão prestes a expirar.
O estudo de impacto publicado pela Arcom destaca vários fatores de pressão:
- A evolução dos modos de consumo, com uma transferência para as telas digitais e o vídeo sob demanda, que reduz o tempo gasto em frente à TNT clássica
- A queda na valorização publicitária dos horários hertzianos, que fragiliza o modelo econômico de certos canais gratuitos
- A ascensão do UHD/4K e do padrão DVB-T2, que impõe investimentos técnicos tanto para os broadcasters quanto para os telespectadores que possuem equipamentos antigos
Essa renovação não se limita a uma formalidade administrativa. Ela determinará quais grupos audiovisuais manterão seu acesso ao espectro hertziano e em quais condições. No entanto, o cronograma preciso das atribuições ainda precisa ser confirmado.
DVB-T2 e codec HEVC: normas técnicas que condicionam o acesso aos programas
A transição para o DVB-T2 e o codec HEVC (H.265) está avançando. Esses dois padrões permitem uma melhor qualidade de imagem e um uso mais eficiente do espectro. Os televisores recentes são compatíveis, mas os modelos mais antigos necessitam de um adaptador externo.
A transição para o HEVC acompanha a ascensão do UHD/4K na TNT. Essa evolução técnica permanece pouco visível para os telespectadores que possuem equipamentos recentes. Ela representa um problema concreto para os lares cujo televisor é anterior a 2018: sem adaptador, certos canais podem se tornar inacessíveis após a generalização do DVB-T2.

Streaming gratuito dos canais: TF1+, france.tv e M6+ frente à SVOD
Os grandes canais franceses lançaram ou reforçaram suas plataformas de streaming gratuito: TF1+, france.tv, M6+. Esses serviços oferecem replay, conteúdos exclusivos e acesso ao vivo, financiados por publicidade.
A Médiamétrie observa em 2025 uma progressão do uso das telas digitais para assistir a programas de televisão, incluindo smartphones e tablets. A experiência de entretenimento não se limita mais à televisão da sala de estar. Essa fragmentação dos meios complica a medição de audiência e redistribui os orçamentos publicitários.
A batalha entre streaming e TNT se desenrola especialmente no horário nobre. As plataformas de SVOD (Netflix, Disney+, Amazon Prime Video) e os serviços gratuitos dos canais disputam o mesmo horário, com estratégias de programação cada vez mais agressivas.
- Os canais gratuitos apostam em eventos (esportes, entretenimento ao vivo) para manter sua audiência linear
- As plataformas SVOD investem em séries com múltiplos episódios para captar a atenção a longo prazo
- Os canais FAST ocupam um nicho intermediário, atraindo telespectadores que desejam conteúdo passivo sem assinatura
A coexistência desses modelos redefine o que “assistir televisão” significa em 2026. A televisão continua sendo o hub central do lar, mas a maior parte do tempo de vídeo agora passa por fluxos de internet, sejam eles gratuitos ou pagos. O DVB-I, padrão híbrido que combina TNT e internet, pode eventualmente unificar esses dois mundos, mas sua implementação ainda está em fase experimental na França.



